-Pare um pouco.
Sente-se aqui comigo e vamos conversar.
Está um dia um tanto frio aqui nessas terras e há trabalho demais para ser feito, eu sei...
Mas mesmo assim pare e sente-se aqui.
Observe o chá naquela chícara de porcelana logo alí e veja sua fumaça volitar e sumir no ar.
Escute a lenha criptar e ser devorada pela ávida chama da lareira.
A poltrona é confortável?
Espere um pouco, eu tenho algo para que apoie as pernas.
Ahn..aqui. Está melhor assim?
Relaxe...apenas relaxe.
O silêncio sempre dura somente o necessário.
-Eu costumo ficar por aqui, sempre venho aqui para pensar, mas estou sempre pensando...
Quando a minha mente é sugada pelo passado eu olho na direção daquela janela da esquerda...
Ela é clara...os vidros estão meio sujos, mas o que mais me incomoda é que por mais que eu a force, ela não abre.
Está trancada.
Mas eu não olho muito para ela, só quando estou muito sozinho e não tenho uma mão para entrelaçar na minha.
..
Mas veja aquela alí na direita...Ela sim me encanta.
Por esta janela sempre entra uma brisa tão refrescante e os sons mais agradáveis que eu já escutei, me fazendo sonhar somos como nunca.
É de lá que vem o meu futuro. Apesar de ser escura e estar entre-aberta eu não consigo parar de olhá-la.
Porém, é na janela alí do meio onde seguidamente eu escuto a voz fria da realidade chamar meu nome.
Chamar não. Elá grita pelo meu nome, é desesperador.Eu já quase cheguei ao ponto de não aguentar mais aquela voz rouca gritando por mim, pensei em desistir e procurar a porta0.
Mas eu sempre a atendo e a minha persistência me recompençou, e me recompensa todos os dias.
Eu me tornei mais forte a medida que o tempo passou e ganhei mais tempo para olhar para janela escura.
Descobri que vivo no meio de uma família.
Descobri que ter irmãos torna um homem forte.
Descobri que amar torna um homem feliz.
E descobri que olhar para si mesmo é a única forma de se tornar sábio.
A minha mão estendida aqui é convite, mas um convite para ti mesmo, busque em ti o que eu busco em mim.
Acho que agora eu vou silenciar um pouco, o meu corpo jovem não supera o meu espírito velho e já tão cansado...
Posso segurar na sua mão enquanto fico sentado aqui, ao seu lado...?
Posso?
Francisco J. B. Pinheiro
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