Vindicta Bonum est vita iucundius ipsa. (Parte II)

Author: Pluribus Unum /

O peito estufado, coberto de penas verdes que lentamente lhe desciam pelo restante do corpo e se tornavam avermelhadas puxou todo o ar que era capaz. Fez isso segundos antes do primeiro raio de sol despontar entre as folhas das árvores. Quando os feixes dourados espantavam a bruma e o frio da noite, o clarinar agudo daquele imponente galo que se punha sobre alguma cerca de madeira úmida, ecoou das barracas até as cavernas do interior da floresta.
O tilintar cotidiano dos aldeões logo se tornou num retumbar alto de metal contra metal, metal contra madeira, e fogo contra madeira.
Alguns, tão refeitos em seu sono não interrompido naquela noite nem haviam se dado conta. Não viera nenhum ataque da floresta.
Logo o fulgor das conversas se inflamou e grande parte dos aldeões, homens e velhos, anciãs e virgens, se dirigiam às barracas dos cavaleiros. Os vigilantes os repeliram com educação, dizendo que Lord Franco ainda repousava.
E a voz da população logo concluiu que a mera presença do cavaleiro reluzente havia afastado o cavaleiro negro.
Porém os cavaleiros mentiram. Franco não dormia. Ele acordou a tempo de ver o galo preparar o seu canto. E ao contrário do que fez para os outros, a manhã só lhe trouxe preocupação...e também...certa dose de frustração.
Franco havia chegado lá com um entusiasmo juvenil pela batalha que se descortinaria, e no entanto...tudo que a noite lhe trouxe foram sonhos brandos.
Logo os gritos dos aldeões diminuiram, felizes e satisfeitos pela presença do Lord e pela ausência do cavaleiro negro, eles foram cuidar de seus afazeres servís como nunca antes.
No castelo a amanhã não trazia barulho. Os empregados andavam contritos. A cozinha, distante dos aposentos, começava a trabalhar ainda antes do sol nascer e quando sua majestade despontava ao alto da escada, o suntuoso café estava servido e lhe aguardando.
Naquela manhã não foi diferente. O rei se erguia com a mesma gravidade de Franco lá no acampamento. Seu coração pesava, mas era um fardo que ele tinha jurado a si mesmo que teria que carregar sozinho.
Os empregados e as pagens que pipocaram em seu aposento ao perceber que o rei acordara foram dispensados, o rei caminharia pelos jardins antes de tomar seu café, e faria isso sozinho.
Sozinho da mesma forma que trocou seus trajes.
Os passos do rei, ao contrário do costume, foram suaves, as pedras do corretor não anunciavam sua presença ao passar.
Corredores, portas e cortinas. Salas e ante-salas. Armaduras e candelabros. O rei passava sem nada notar.
Mas logo, diante de seus olhos a imensidade artificial do jardim interno se abria diante dele.
A grama orvalhada gelou suas sandálias.
Logo um ruido sutil de água corrente lhe chegou aos ouvidos idosos. Ele seguia o barulho, sentaria-se na fonte por um tempo, desfrutando de seu frescor sem igual.
Porém, logo a priemeira surpresa da manhã.
Aparentemente, o coração de sua filha também inquieto, a fizera despertar cedo naquele dia.
-Bom dia, minha filha. - a voz branda do rei soou baixa, educada e gentil. Mas mesmo assim a princesa, tomada de um enorme susto se pôs de pé, não demorando a reverenciá-lo.
-Bom dia...Majestade. - a voz serena da princesa contrastou com suas atitudes rápidas.
O rei reprovou seu tom apenas mentalmente. - Estamos a sós aqui minha filha, me chame apenas de pai. - Ele dizia enquanto se dirigia para mais perto dela, indo sentar-se no mesmo banco de pedra que ela.
Acompanhando-o com os olhos, ela sorriu e sentou-se ao lado dele. Buscando-lhe a mão.
-Está bem, papai. - O sorriso encantador da filha, seus olhos de cristal e o perfume que vinha de sua vasta e rubra cabeleira, acalentaram o coração do velho rei.
O silêncio se abatia sobre os dois. O rei havia reparado que ela havia colhido algumas flores variadas e delicadas, segurava-as com suavidade as admirava sonhadora. Ele não ousava interromper os sonhos da princesa.
Já se perdendo em sua própria nostalgia o rei olhava para a água clara da fonte...Quando seu rosto ganhou um estalado e beijo vindo dos lábios frios da filha.
-Papai, vou lhe esperar para tomar-mos café juntos. Vim apenas colher algumas flores...
A gargante dele pareceu muito seca para poder responder. Ela apenas sorriu e concordou com a cabeça, enquanto sua mão acenava vagamente para ela.
O rufar do vestido da Princesa Lázuli se perdeu entre o rufar dos arbustos, e o rei ganhava seus minutos solitários.
Lembraças lhe invadiram a mente...ele começava a ver o passado distante como se fosse o agora....
...
Duas crianças corriam entre os arbustos. Suas risadas infantis eram contagiosas, as folhas pareciam fazer questão de tocar-lhes. Corriam ao redor da fonte, ora molhavam suas mãos e molhavam um ao outro.
Logo uma figura imponente se destacou, vinha rapidamente pelo jardim, mas com um sorriso inabalável e uma figura acolhedora. Um rei muito mais jovem e vivo se aproximava da fonte.
Chegou a tempo de ver o menino que fugia de uma garotinha que parecia ter fogo nos cabelos, tropeçar...talvez em seus próprios pés...e se estabacar no chão...arranhando o joelho.
A menina se pôs a rir, enquanto o garoto fazendo força para não chorar assoprava o ferimento sujo de terra que agora sangrava.
-Lázuli...- se pronunciou o rei, finalmente. - agora chega, não é? - Ele lhe desferiu um olhar com uma das sombrancelhas erguidas, e com um sorriso conquistador no canto dos lábios.
Ela sabia que aquela frase dele não era tão inocente quanto parecia. Era uma ordem.
De braços extendidos, e tentando desarmá-lo ela correu na direção dele, pronta para lhe dar um abraço
-Papai! - A menina sorria encantadoramente, os cabelos crespos e vermelhos voavam e emolduravam seu rosto pequeno e pálido. O rei, sem resistir, abaixou-se e a acolheu em seus braços. Passados alguns segundos ele direcionou o seu olhar para o menino caído logo mais a frente.
O garoto estava de joelhos, soprava com cuidado um ferimento grande no joelho, seus olhos cheios de lágrimas, mas ele fazia uma força absurda para não demonstrar a sua fraqueza pela dor.
-Lázuli, minha pequena, por que você não cuida do seu amigo? - Inquiriu o rei, em seu bondoso tom habitual.
Os olhos azuis da menina controlaram o sadismo e sentimento de superioridade no momento em que pousaram no amigo caído. Ela sentiu pena, apesar de ainda regozijar-se por tê-lo derrubado.
Ela deslizou para perto dele, se abaixando e soprando junto com ele o ferimento, que sangrava menos agora.O rei também levantou-se e andando lentamente, após dar o sinal para os empregados que o tinham acompanhado até agora,partirem, foi para perto dos garotos.
Lázuli tirou um pequeno lenço verde água da manga de seu vestido e foi até a fonte, molhá-lo. Voltou e começou a lavar o corte, tirando com o lenço a terra, pedaços de graveto e qualquer outra coisa que estivesse dentro do corte.
O rei sorria e os observava em silêncio.Até que Lázuli cortou a tranquilidade do ambiente.
-Papai, sabia que vamos nos casar?
O rei a olhou, confuso, pode-se dizer.
-Quem vai se casar, minha filha?
-Eu papai!
-Com quem?
-Ora,com que mais seria?! Com Franco!
O rei abriu um gargalhada enorme. Ria com grande vontade.Quando ele parou de rir deparou-se com a filha parada na sua frente, com as mãos fechadas em punho e postas sobre a cintura.
-O que é tão engraçado, papai? - Ela olhava para ele com seriedade, ocultado a raiva que guardava no interior do, ainda infantil, peito.
-Você é muito nova para pensar no seu casamento ainda, minha filha?
-Não papai, já está decidido1
O rei, achou melhor entrar no "joguinho" da filha, ele sabia que ela poderia levar aquela teimosia até o dia do casamento e depois desmanchar tudo com a pobre vítima.
-Franco. - a voz do rei um tanto mais séria. - Venha cá.
O garoto baixou a cabeça assim que ouviu seu nome. Levantou-se e andou mancando até a frente do rei, parando ao lado de Lázuli.
-Ela lhe disse que vocês vão casar? - um pequeno sorriso crispou nos lábios do rei.
Franco simplesmente menou a cabeça afirmativamente.
-E você quer se casar com ela?
Ele ainda não tinha levantado a cabeça, seus olhos grandes olhavam para o chão e perceberam quando a juba ruiva de Lázuli se virou rapidamente na direção dele depois de ouvir a pergunta do pai. Sem se dar conta Franco chegou a dar meio passado para o lado.
-Sim, senhor. - a vozinha miuda saiu bem baixa.
-Viu, papai! - vibrou Lázuli triunfante.
O rei ficou sério.
-Venham cá. - Os braços do rei se abriram e puxaram as crianças, cada uma para um perna.
-Lázuli, você sabe que Franco logo terá que passar pelo treinamento para tornar-se um cavaleiro, para proteger seu rei.
-Sim papai.
-Você irá esperar que ele retorne?
Os olhos dela, azuis, brilhantes e puros, olharam para o garoto que distridamente olhada para ela.-Sim papai.
O rei já começava a não duvidar daquele sentimento puro que parecia nascer.
-E você, Franco...- o menino se assustou, chegou a dar um pulo no colo do rei.
-Você retornará para minha filha. - os olhos dele também brilharam. Ele sentiu quando a mão fria da Lázuli tocou na sua mão.
-Sim, magestade.
O rei suspirou fundo. Não havia mentira naqueles dois.O rei não acreditava que pudesse haver mentira nas crianças.
De dentro das vestes, ao redor do pescoço, o rei tirou um pingente, era um coração, cravado por uma espada.Sendo que as peças se separavam.
Ele tirou a espada de dentro do coração.-Peguem. - O rei alcançou a espada para Franco e entregou o coração para Lázuli.
NÃO É O FIM DA PA RTE DOIS, PRECISA EDITAR.

Vindicta bonum est vita iucundius ipsa. (Parte I)

Author: Pluribus Unum /

-Quem é o mais indicado?
-Franco, Majestade. Com toda certeza, este cavaleiro foi aclamado por todo reino, tornou-se símbolo da justiça entre o nosso povo.

O sol já brilhava forte entre os muros daquele grande castelo. O velho rei, de barba longa e grisalha, tinha seus olhos muito azuis depositados sobre a garota de cabelos ruivos que colhia margaridas no jardim interno.Com uma expressão grave, de quem guardou algum receio, o rei olhou para o conselheiro.
-Está bem. Mande-o.

Não demorou muito, as ordens desceram todas as escalas de hierarquia, apesar de não serem muitas, e logo chegavam aos ouvidos de Lord Franco.
-Está é a missa, milord. - sentenciou o pagem de Franco após ler o pergaminho que fora emitido pelo castelo. - O mensageiro acabou de deixá-la aqui.
Os olhos de Franco, um castanho incomum, brilhavam por cima da taça de prata, ele sorvia seus últimos goles de hidromel enquanto ouvia o pagem. Finalmente o momento que ele havia esperado por tanto tempo.
Ao final da noite, Franco, seus homens e alguns empregados montavam fortes cavalos em direção ao sul do reino, um vilarejo que constantemente era atacado por selvagens da floresta, mas por algum motivo, nunca avançam mais pelo reino, mesmo a defesa sul sendo mais fraca e devido à vantagem númerica o avanço só seria contido nas proximidades do castelo.
Mas o problema em si, e foco da missão, não eram os selvagens, mas era o líder dos selvagens...Aquele que por alguns e por ali ficou conhecido como Cavaleiro Negro.Ninguém sabia como ele era, era extremamente difícil chegar até mesmo perto de tal entidade...Ele protegia os selvagens e também era protegido por eles.

E Lord Franco recebeu a missão de eliminá-lo.

Ao amanhacer, houve uma comossão generalizada pela cidade. O acampamento dos novos cavaleiros foi montado silenciosamente durante noite.A fama de Franco era grandiosa pelo reino todo, as donzelas lhe rendiam suspiros, os homens lhe desejavam vida longa e próspera, os idosos, acometidos de grande emoção perdiam as palavras dos velhos lábios. As crianças temiam sua face dura, mas riam com o riso dele e se abrandavam ao seu olhar mais terno.
Franco daria toda a atenção que fosse demandanda por aquelas pessoas...mas agora, ele precisava se inteirar da situação do vilarejo. Ele queria o quanto antes a cabeça do Cavaleiro Negro posta sobre uma bandeija de prata.Junto do comandante diligente do vilarejo, Franco soube que os ataques dos selvagens ocorriam sempre durante a noite, eram violentos, mas incomuns, o saque era pouco e a destruição não era de nenhum dano irreversível. Eles assustavam, já haviam matado algumas pessoas, mas sem ferimentos de armas.
Não havia dificuldade aparente ao ver de Franco, seus homens armariam emboscadas e Franco aguardaria o próprio cavaleiro.Tudo foi planejado e preparado sem nenhum alarde, o vilarejo certamente era observado por selvagens durante o dia, de longe, em algum posto de observação camuflado nas matas. Os cidadãos foram instruidos a agir normalmente durante todo o dia.
Mansa e fria veio a noite...desceu as colinas do leste, e Franco esperava.As velas e fogueira em sua cabana, apagadas, silencioso ele esperava sentando em sua confortável poltrona. A armadura reluzia em alguns pontos, clareada pelo azul frio da madrugada.
O silêncio levou Franco ao sono.

Rito de tinta

Author: Pluribus Unum /

"Não havia naquela manhã nenhum atrativo
especial.
Por entre frestas puder ver o sol despontar na campina.
A
brisa
fria deixou os animais preguiçosos, o sol custou a aquecer o solo e
inspirá-los a virem saudar o novo dia.

Mas o que se passava
lá fora não era idêntico ao que eu tinha em meu
quarto.
O quadrado
cálido
que eu me acomodava todas as noites dava-me o conforto
necessário
para a
satisfação do frio.

Enquanto estou aqui, pensando,
algumas frutas
me fazem companhia...alguns
goles de suco foram
sorvidos por mim, que
desatento permitiu que algumas gotas
se
derramassem por folhas ali da
escrivaninha.
Mas quem liga? Papéis velhos
devem ter
manchas.

Abri um pouco da janela, o vento a levou com
força contra
a parede externa
e imediatamente veio saudar o meu rosto,
que suavemente o
beijou.
A ponta de meu nariz ficou um tanto fria,
enquanto o ar gelado
ganhava espaço no meu peito.

Senti a
calidez do quarto
diminuir, mas não me importei, agora havia
equilibrio.
Sentado cá onde
estou, abri o vidro de tinta de pena,
havia também uma pilha de
papéis à minha
disposição.
A ponta áspera da pena foi
colocada sobre as folhas
amareladas
enquanto o meu olhar se
perdia nas montanhas ao longe.
A chama
da vela ao meu lado dançava
levemente, ajudava na minha dispersão e
me
ajudou a chegar na triste
conclusão que logo cheguei enquanto
levantava:

Não havia
nada para escrever naquele
dia..."


In Memorian

Author: Pluribus Unum /

Os anos se passaram vagarosamente.
O homem sancionou o tempo.
E este, sedento e ávaro, tudo quis consumir.
Consumiu o fogo. Consumiu a madeira.
Água e terra. Consumiu a criação.
O corpo do homem.
A memória do homem.
A consumição está sendo consumada.
(...)
Os meus olhos já não brilham e conseguem ver tanta cor.
O céu é de um azul pálido e sem vida.
Queria eu poder dizer que ainda há algum verde vivo em alguma folha de algum galho novo.
As pedras já não são aquecidas por um sol dourado, a areia perdeu a forma.
O vasto mar, é morto, não algo a se apreciar.
(...)
A última águia alçou solitária seu vôo de libertação,
o desespero no último rufar de asas.
Suas garras poderosas agora eram incômodas,
a prendiam na terra.

O último bando de felinos se reuniu,
conservaram ainda o brilho selvagem no olhar,
mas domados pela sede e fome se entregaram ante a última
sombra de um último oasis perdido no deserto.
O grande leão rugiu chorando.

Os últimos tambores soaram.
Algum sino solitário se dispos a badalar.
Clarins.Flautas e guizos.
Uma última canção do passado?

Silêncio e penumbra.
A luz dissipada se perdeu no tempo.
Mais silêncio, silêncio entre o beijo de despedida.
Silêncio entre as mãos enlaçadas.

A foice deposta trará um novo dia.O tempo não será tirano.
Não correrá. Caminhará pimpão entre os passantes.
A ilusão se torna um passado querido, ainda que sofrido.

As mãos não se separam.
Ao fim, o gosto e o sabor.

A certeza de que o beijo da saudade, é melhor que o da despedida.
- Francisco J. B. Pinheiro .'.
(N.A.: Onde aparece "(...)" deveria ser uma linha de espaço, mas a edição de texto NÃO está ajudando. Fico devendo a formatação correta.)