O peito estufado, coberto de penas verdes que lentamente lhe desciam pelo restante do corpo e se tornavam avermelhadas puxou todo o ar que era capaz. Fez isso segundos antes do primeiro raio de sol despontar entre as folhas das árvores. Quando os feixes dourados espantavam a bruma e o frio da noite, o clarinar agudo daquele imponente galo que se punha sobre alguma cerca de madeira úmida, ecoou das barracas até as cavernas do interior da floresta.
O tilintar cotidiano dos aldeões logo se tornou num retumbar alto de metal contra metal, metal contra madeira, e fogo contra madeira.
Alguns, tão refeitos em seu sono não interrompido naquela noite nem haviam se dado conta. Não viera nenhum ataque da floresta.
Logo o fulgor das conversas se inflamou e grande parte dos aldeões, homens e velhos, anciãs e virgens, se dirigiam às barracas dos cavaleiros. Os vigilantes os repeliram com educação, dizendo que Lord Franco ainda repousava.
E a voz da população logo concluiu que a mera presença do cavaleiro reluzente havia afastado o cavaleiro negro.
Porém os cavaleiros mentiram. Franco não dormia. Ele acordou a tempo de ver o galo preparar o seu canto. E ao contrário do que fez para os outros, a manhã só lhe trouxe preocupação...e também...certa dose de frustração.
Franco havia chegado lá com um entusiasmo juvenil pela batalha que se descortinaria, e no entanto...tudo que a noite lhe trouxe foram sonhos brandos.
Logo os gritos dos aldeões diminuiram, felizes e satisfeitos pela presença do Lord e pela ausência do cavaleiro negro, eles foram cuidar de seus afazeres servís como nunca antes.
No castelo a amanhã não trazia barulho. Os empregados andavam contritos. A cozinha, distante dos aposentos, começava a trabalhar ainda antes do sol nascer e quando sua majestade despontava ao alto da escada, o suntuoso café estava servido e lhe aguardando.
Naquela manhã não foi diferente. O rei se erguia com a mesma gravidade de Franco lá no acampamento. Seu coração pesava, mas era um fardo que ele tinha jurado a si mesmo que teria que carregar sozinho.
Os empregados e as pagens que pipocaram em seu aposento ao perceber que o rei acordara foram dispensados, o rei caminharia pelos jardins antes de tomar seu café, e faria isso sozinho.
Sozinho da mesma forma que trocou seus trajes.
Os passos do rei, ao contrário do costume, foram suaves, as pedras do corretor não anunciavam sua presença ao passar.
Corredores, portas e cortinas. Salas e ante-salas. Armaduras e candelabros. O rei passava sem nada notar.
Mas logo, diante de seus olhos a imensidade artificial do jardim interno se abria diante dele.
A grama orvalhada gelou suas sandálias.
Logo um ruido sutil de água corrente lhe chegou aos ouvidos idosos. Ele seguia o barulho, sentaria-se na fonte por um tempo, desfrutando de seu frescor sem igual.
Porém, logo a priemeira surpresa da manhã.
Aparentemente, o coração de sua filha também inquieto, a fizera despertar cedo naquele dia.
-Bom dia, minha filha. - a voz branda do rei soou baixa, educada e gentil. Mas mesmo assim a princesa, tomada de um enorme susto se pôs de pé, não demorando a reverenciá-lo.
-Bom dia...Majestade. - a voz serena da princesa contrastou com suas atitudes rápidas.
O rei reprovou seu tom apenas mentalmente. - Estamos a sós aqui minha filha, me chame apenas de pai. - Ele dizia enquanto se dirigia para mais perto dela, indo sentar-se no mesmo banco de pedra que ela.
Acompanhando-o com os olhos, ela sorriu e sentou-se ao lado dele. Buscando-lhe a mão.
-Está bem, papai. - O sorriso encantador da filha, seus olhos de cristal e o perfume que vinha de sua vasta e rubra cabeleira, acalentaram o coração do velho rei.
O silêncio se abatia sobre os dois. O rei havia reparado que ela havia colhido algumas flores variadas e delicadas, segurava-as com suavidade as admirava sonhadora. Ele não ousava interromper os sonhos da princesa.
Já se perdendo em sua própria nostalgia o rei olhava para a água clara da fonte...Quando seu rosto ganhou um estalado e beijo vindo dos lábios frios da filha.
-Papai, vou lhe esperar para tomar-mos café juntos. Vim apenas colher algumas flores...
A gargante dele pareceu muito seca para poder responder. Ela apenas sorriu e concordou com a cabeça, enquanto sua mão acenava vagamente para ela.
O rufar do vestido da Princesa Lázuli se perdeu entre o rufar dos arbustos, e o rei ganhava seus minutos solitários.
Lembraças lhe invadiram a mente...ele começava a ver o passado distante como se fosse o agora....
...
Duas crianças corriam entre os arbustos. Suas risadas infantis eram contagiosas, as folhas pareciam fazer questão de tocar-lhes. Corriam ao redor da fonte, ora molhavam suas mãos e molhavam um ao outro.
Logo uma figura imponente se destacou, vinha rapidamente pelo jardim, mas com um sorriso inabalável e uma figura acolhedora. Um rei muito mais jovem e vivo se aproximava da fonte.
Chegou a tempo de ver o menino que fugia de uma garotinha que parecia ter fogo nos cabelos, tropeçar...talvez em seus próprios pés...e se estabacar no chão...arranhando o joelho.
A menina se pôs a rir, enquanto o garoto fazendo força para não chorar assoprava o ferimento sujo de terra que agora sangrava.
-Lázuli...- se pronunciou o rei, finalmente. - agora chega, não é? - Ele lhe desferiu um olhar com uma das sombrancelhas erguidas, e com um sorriso conquistador no canto dos lábios.
Ela sabia que aquela frase dele não era tão inocente quanto parecia. Era uma ordem.
De braços extendidos, e tentando desarmá-lo ela correu na direção dele, pronta para lhe dar um abraço
-Papai! - A menina sorria encantadoramente, os cabelos crespos e vermelhos voavam e emolduravam seu rosto pequeno e pálido. O rei, sem resistir, abaixou-se e a acolheu em seus braços. Passados alguns segundos ele direcionou o seu olhar para o menino caído logo mais a frente.
O garoto estava de joelhos, soprava com cuidado um ferimento grande no joelho, seus olhos cheios de lágrimas, mas ele fazia uma força absurda para não demonstrar a sua fraqueza pela dor.
-Lázuli, minha pequena, por que você não cuida do seu amigo? - Inquiriu o rei, em seu bondoso tom habitual.
Os olhos azuis da menina controlaram o sadismo e sentimento de superioridade no momento em que pousaram no amigo caído. Ela sentiu pena, apesar de ainda regozijar-se por tê-lo derrubado.
Ela deslizou para perto dele, se abaixando e soprando junto com ele o ferimento, que sangrava menos agora.O rei também levantou-se e andando lentamente, após dar o sinal para os empregados que o tinham acompanhado até agora,partirem, foi para perto dos garotos.
Lázuli tirou um pequeno lenço verde água da manga de seu vestido e foi até a fonte, molhá-lo. Voltou e começou a lavar o corte, tirando com o lenço a terra, pedaços de graveto e qualquer outra coisa que estivesse dentro do corte.
O rei sorria e os observava em silêncio.Até que Lázuli cortou a tranquilidade do ambiente.
-Papai, sabia que vamos nos casar?
O rei a olhou, confuso, pode-se dizer.
-Quem vai se casar, minha filha?
-Eu papai!
-Com quem?
-Ora,com que mais seria?! Com Franco!
O rei abriu um gargalhada enorme. Ria com grande vontade.Quando ele parou de rir deparou-se com a filha parada na sua frente, com as mãos fechadas em punho e postas sobre a cintura.
-O que é tão engraçado, papai? - Ela olhava para ele com seriedade, ocultado a raiva que guardava no interior do, ainda infantil, peito.
-Você é muito nova para pensar no seu casamento ainda, minha filha?
-Não papai, já está decidido1
O rei, achou melhor entrar no "joguinho" da filha, ele sabia que ela poderia levar aquela teimosia até o dia do casamento e depois desmanchar tudo com a pobre vítima.
-Franco. - a voz do rei um tanto mais séria. - Venha cá.
O garoto baixou a cabeça assim que ouviu seu nome. Levantou-se e andou mancando até a frente do rei, parando ao lado de Lázuli.
-Ela lhe disse que vocês vão casar? - um pequeno sorriso crispou nos lábios do rei.
Franco simplesmente menou a cabeça afirmativamente.
-E você quer se casar com ela?
Ele ainda não tinha levantado a cabeça, seus olhos grandes olhavam para o chão e perceberam quando a juba ruiva de Lázuli se virou rapidamente na direção dele depois de ouvir a pergunta do pai. Sem se dar conta Franco chegou a dar meio passado para o lado.
-Sim, senhor. - a vozinha miuda saiu bem baixa.
-Viu, papai! - vibrou Lázuli triunfante.
O rei ficou sério.
-Venham cá. - Os braços do rei se abriram e puxaram as crianças, cada uma para um perna.
-Lázuli, você sabe que Franco logo terá que passar pelo treinamento para tornar-se um cavaleiro, para proteger seu rei.
-Sim papai.
-Você irá esperar que ele retorne?
Os olhos dela, azuis, brilhantes e puros, olharam para o garoto que distridamente olhada para ela.-Sim papai.
O rei já começava a não duvidar daquele sentimento puro que parecia nascer.
-E você, Franco...- o menino se assustou, chegou a dar um pulo no colo do rei.
-Você retornará para minha filha. - os olhos dele também brilharam. Ele sentiu quando a mão fria da Lázuli tocou na sua mão.
-Sim, magestade.
O rei suspirou fundo. Não havia mentira naqueles dois.O rei não acreditava que pudesse haver mentira nas crianças.
De dentro das vestes, ao redor do pescoço, o rei tirou um pingente, era um coração, cravado por uma espada.Sendo que as peças se separavam.
Ele tirou a espada de dentro do coração.-Peguem. - O rei alcançou a espada para Franco e entregou o coração para Lázuli.
NÃO É O FIM DA PA RTE DOIS, PRECISA EDITAR.